sábado, 27 de julho de 2013

Burguesia e Proletariado: O vilão e o mocinho que não existem

Os velhos conceitos de Marx já não servem para explicar a complexidade do mundo atual. Classificar sete bilhões de indivíduos incrivelmente diferentes em simplesmente 'burguesia' e 'proletariado' é como dividi-los entre Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho, ou Tom e Jerry.

Para Marx "A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado"*. Assim, a burguesia seria a classe opressora que detêm os meios de produção, enquanto o proletariado seria a classe oprimida, ou seja, a classe trabalhadora que não detêm os meios de produção. A vil burguesia, concentrando toda a riqueza para si sem trabalhar, como um irmão que rouba doces da irmã, seria a causa de toda a pobreza e a desigualdade social. Já o proletariado, que realmente botaria a mão na massa e sustentaria os burgueses vagabundos, seria a classe oprimida, pois trabalharia não para si, mas para o burguês.

A visão marxista-infantil de sociedade. O vilão explorador e o mocinho injustiçado. Será mesmo?

Ora, esta visão poderia até ser verdadeira em regimes pretéritos sem mobilidade na pirâmide social, nos quais liberdade econômica era algo inatingível, como sociedades feudais medievais, pautadas na polarização entre vassalos e suseranos ou em sociedades escravistas, divididas abissalmente entre escravos e senhores. Nestas, assim como acontece na sociedade indiana de castas, quem nascesse em uma posição X morreria na posição X, e quem nascesse na posição Y morreria na posição Y. Era puro determinismo.

Porém a medida em que a humanidade foi se industrializando e se interconectando cada vez mais através da tecnologia e da globalização, as transformações sociais foram imensas. Criaram-se novas oportunidades, novos campos de trabalho, enfim, novas possibilidades econômicas. A integração entre os povos e as liberdades individuais imprimiram um cenário em que a divisão entre burguês e proletário tornou-se simplória demais para explicar a nova realidade macroeconômica. Neste frenesi, empresas abriram-se para o capital aberto; empresas foram fusionadas, enfim, modificaram tanto suas estruturas que hoje até um mendigo pode comprar uma porção dela através de ações, mesmo nem fazendo ideia de quem é o chefe da mesma.

Ao contrário do que que ocorria na época da Revolução Industrial - que Marx se inspirou, hoje existem empresas e indústrias de segmentos tão diversificados, e mercados tão específicos que nem todas as relações de trabalho são simplesmente ditadas pelo clichê patrão versus empregado. Nem todos são tratados como peões a la Charles-Chaplin. Ora, pela visão de Marx, um pipoqueiro, sendo dono de seu meio de produção, é um porco-capitalista burguês, enquanto um importante diretor de multinacional que anda de BMW é um proletário explorado, pois não possui os meios de produção

Hoje a sociedade é complexa demais para ser explicada apenas pelo antagonismo entre burguesia e proletariado.

Além disso, deve-se ressaltar que a próprio avanço da tecnologia dos últimos anos possibilitou que a mão de obra qualificada fosse muito mais procurada, alterando profundamente as relações de trabalho. Ora, a medida que o trabalho braçal passa a ser menos necessário por causa das máquinas, o trabalho intelectual, ou a famosa mão de obra qualificada, automaticamente ganha valor. Desta forma, proletários passam a fazer MBA e a ganhar cada vez mais. E aí, continuam sendo miseráveis explorados?

A estratificação da sociedade entre 'burguesia' e 'proletariado' é uma tentativa autoritária de simplificar uma realidade complexa, ditada por fatores tão diversos quanto as singularidades dos homens que habitam a Terra. E vem sendo erroneamente difundida como se fosse a verdade absoluta nas escolas e universidades. A solução? É simples. É só enxergar a sociedade atual.

* O Manifesto Comunista, de Marx e Engels




Comentários
15 Comentários

15 comentários :

  1. Curti o seu blog e a forma como você escreve. Só tenho uma dúvida, eu entendo a sua ânsia por abrir os nossos olhos acerca do movimento marxista que não deixou de existir, mas não consigo ver a contraproposta. Digo isto porque eu não consigo ver a forma como vivemos hoje como a melhor forma, ou a mais saudável, assim como não vejo o marxismo/comunismo como a resposta. A minha pergunta a quem se coloca contra o comunismo é: qual a sua proposta?
    Porque se ficarmos só desferindo criticas ao "extinto", não criamos novas formas de pensar, apenas o endossamos. Eu entendo que seria mais eficiente se apresentássemos propostas contra o marxismo.
    Parabéns pelo Blog!!

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  2. Obrigado pelo apoio Marcus Vinícius!

    Sua dúvida me deu uma excelente ideia de postagem! Após o final da série sobre Marxismo Cultural poderei abordar esse assunto, pois é uma dúvida de muitos. Mas já adiantando alguns pontos:

    - Concordo com você quando diz que o mundo que vivemos hoje é um lixo. Pobreza, guerras, fome e caos por todos os lados. E também sabemos que TODAS as tentativas dos marxistas de "melhorarem o mundo" falharam feio, ou até o pioraram. Então o que fazer?

    - No campo econômico, tanto os liberais quanto os conservadores entendem que a melhor opção é o livre mercado. Não porque é o paraíso na terra, mas sim porque é o "menos pior" dos modelos. É o que funciona.

    - Ainda no campo econômico, o capitalismo é o "menos pior" dos sistemas. Foi ele que salvou milhões de pessoas da pobreza, as vestiu e as alimentou. "Mas veja a África! É pobre por causa do capitalismo!" É preciso entender que as regiões mais pobres do globo são justamente onde NÃO EXISTE livre mercado, onde FALTA capitalismo.

    O mundo é uma porcaria não porque vivemos em um modelo econômico errado, mas porque o ser humano é naturalmente mau, mesquinho e egoísta. E não há marxismo ou marxismos que resolverão isso.

    Droga, ficou um texto enorme e eu não falei nem metade que ia falar!! hahaha

    Abraço
    -

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  3. Boa tarde! legal seu texto cara, bem honesto quanto ao seu posicionamento teórico, porém, em minha concepção em quanto marxista, penso que você simplificou de mais a sua analise sobre a teoria marxista, o que pode causar um entendimento deturbado para seus leitores. Primeiro em hipótese alguma dentro do pensamento marxista há de se considerar um vendedor de pipoca um porco-capitalista burguês, de modo que o propio Marx escreveu que aqueles que detêm seu porpio negócio são ainda mais explorados. Segundo todos as tentativas de se implantar um socialismo de estado falharam, concordo, contudo todos os direitos sócias que, hoje estão sendo usurpados dos trabalhadores são herança de organizações de orientação marxista. De modo que também deve-se analisar com maior cautela os motivos para que o "socialismo real" falha-se. Outro ponto de sua analise que eu vejo como problemático é quanto a Africa, diria que é muita maldade para com os Africanos atribuir a não existência do livre mercado como causa das mazelas que por la existem, e deixar de lado todo um histórico de exploração capitalista, desde o mercantilismo até os dias atuais. Todavia, reitero que gostei do seu texto e respeito seu posicionamento.

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    1. Olá Marcos,

      O socialismo falhou porque é uma contradição em si. Ludvig Von Mises faz uma análise muito interessante. Em um governo de economia planificada - ausente de mercado, não é possível precificar. Se não existem preços, não existem relações de custo, trabalho e produção. E sem essa "mão invisível" (pegando o termo do Adam Smith), não existe sociedade.

      Veja todos os países ditos socialistas. Falharam simplesmente porque o socialismo é impossível! Não existe economia sem capitalismo. O governo chinês só "deu certo" quanto abriu-se para a economia "burguesa". A URSS só alavancou por causa das políticas de Lenin de abertura econômica (NEP). A Coréia do Norte mantêm indústrias sul coreanas em seu território. Cuba agora está começando a permitir atividades privadas...etc.

      Como diz Pondé, ser de esquerda é legal, mas dinheiro é coisa séria! Até o Sr. Lula não teve coragem de bater de frente com o capitalismo. Sem capitalismo não há ordem.

      Mesmo assim, obrigado por apreciar o texto.
      Abraço

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  4. Boa noite! quanto ao socialismo ter falhado, reitero que nunca houve nenhuma experiência socialista até hoje, o que houve foram tentativas de implanta-to por via do estado, que conforme sabemos foram desastrosas, pois não haviam as condições matérias para que se desenvolveu-se uma revolução de esfera global. Quanto as bases do socialismo serem uma contradição continuo discordando, ao passo contradições são a base do capitalismo, afinal sem a exploração do trabalho assalariado o mesmo sequer existia, assim como também o trabalhador não usar o produto que produziu. As definições do Smith são perfeitas, e de fato não existiria sociedade, capitalista. mas um outro modelo societário é possível sim, se será o socialismo não sei, ninguém pode prever o curso da história, mas o não há sustentação para que o capitalismo seja, eterno, prova disso são suas crises cíclicas que têm ocorrido cada vez com mais frequência Muito obrigado por responder, e novamente me desculpo pelo outro comentário em que me referia a seriedade de seus textos, espero que tenha entendido e boa noite..

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    1. De fato, Marx acreditava que o socialismo - e depois o comunismo, só seriam atingidos através de uma revolução global. Primeiro nos países centrais (que na época era a Alemanha), estendendo-a para os outros locais do planeta.

      Entretanto, isso não só é inviável, como é absolutamente impossível de acontecer. E enquanto a ditadura do proletariado não se concretizava, estados totalitários eram criados, estes que mataram mais de 100 milhões de pessoas.

      A contradição não é a base do capitalismo. Esta concepção vem do conceito de dialética marxista materialista, que é bastante discutível. Os próprios conceitos de divisão territorial do trabalho e divisão social do trabalho que embasam as supostas "contradições do capitalismo", são bastante discutíveis.

      Na verdade, como aprendi com Mises, o capitalismo é a coisa mais simples do mundo: é apenas baseado em trocas comerciais. Não há contradições: se eu tenho um produto, posso vendê-lo, se eu não tenho, não posso vendê-lo. Se tenho dinheiro, posso comprá-lo. O mercado premia os melhores e pune os piores. É simples.

      As crises cíclicas do capitalismo fazem parte do jogo. Não há capitalismo sem bancarrota. Aliás, o capitalismo não é o paraíso na terra, mas é o que funciona por aqui.

      Boa noite.

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    2. Olá!

      Eu acho que não entendi direito o que quis dizer com "O mercado premia os melhores e pune os piores."

      Você poderia me esclarecer este trecho?



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    3. De acordo com Mises, as "empresas servem ao consumidor". Logo, quem manda no mercado é quem tem o poder de escolha, ou seja, eu ou você.

      Assim, ao mesmo tempo em que as empresas que oferecem produtos BONS e BARATOS tendem a crescer, as empresas que oferecem produtos CAROS e RUINS tendem a falir. A própria dinâmica do livre mercado faz com que algumas corporações quebrem e com que algumas triunfem.

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  5. De facto ele pode ter razão. Marx. Quando os empregados são mal pagos, trabalham horas de mais, e o lucro da loja vai todo para o Patrão, não estamos a ser explorados?

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    1. Se não fossem essas horas de trabalho, esses empregados passariam fome, como aponta Mises. Se os trabalhadores são mal pagos é porque existe muita mão de obra mal qualificada para poucas vagas.

      Quanto mais livre for uma nação, mais postos de trabalho são criados. E quanto mais empregos, maiores são os salários, pois o patrão desejará atrair os melhores empregados. O mercado regula os salários.

      Além disso, o conceito de mais valia do Marx já foi questionado.

      Para Marx, o valor de um produto é determinado de acordo com a quantidade de trabalho gasta para produzi-lo. Se eu produzisse um sanduíche por hora no valor de 1 real e trabalhasse 40 horas por semana, produziria 40 sanduíches, ou 40 reais em produtos. Se nessa semana eu ganhasse somente 10 reais de salário, os outros 30 iriam para o patrão. Esse excedente é chamado de "mais valia".

      Mas esse conceito já foi questionado várias vezes na academia. Os economistas têm um conceito de "utilidade marginal". Ou seja, o valor de um produto NÃO É determinado pela quantidade de trabalho, mas pela sua UTILIDADE. Se eu gastasse 40 horas produzindo uma estátua minha, ninguém iria comprar, e esse produto não teria valor.

      Isso derruba toda a teoria marxista. Na verdade, o valor de uma mão de obra é determinado pela lei da oferta e da procura, além de sua utilidade. Ninguém explora ninguém.

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  6. Comunistas são muito burros. Comunistas são imbecis. E como eles, são as feminazistas, os gayzistas, os econazistas, e os veganazistas. Eles são prova concreta de que o ser humano é um tremendo FDP, e o ambiente em que ele vive, ou a carga de "informação" que ele recebe o tirna ainda mais FDP.

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    1. Em alguns casos é por filhadaputisse mesmo, outros por ingenuidade! Alguns agem por má fé, mas infelizmente muitos destes militantes acham erroneamente que estão melhorando o mundo.

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  7. Para entender um pouco mais do "comunismo" atual, sugiro ler Olavo de Carvalho - "O Mínimo que você precisa saber para não ser idiota"

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  8. Ta eu só tenho algumas dúvidas: E se todos os trabalhadores recebessem um salário mais justo ? Se o trabalho braçal fosse tão bem remunerado como o intelectual ? Não vejo isso poderia acontecer num sistema Capitalista. Isso é uma idéia Socialista/Comunista para você ? Para mim, independente da forma de organização socioeconômica. Essa ideia dos salários mais justo seria sociedade onde eu queria viver. Pode parecer utópico.
    Mas essa exploração do trabalhador para mim é nojenta.Pô, um trabalhador que trabalha 8h por dia, 7 dias por semana, carregando e descarregando mercadorias do caminhão num calor repetidas vezes , ganhar um salário mínimo. Enquanto um cara da mesma empresa que trabalha as mesmas quantidades de horas ganhar, às vezes, até três vezes a mais que o trabalhador braçal. Desculpa o desabafo esquerdista.
    Mas deixando isso a parte. Gostei do da forma que você escreveu no blog e a forma como responde aos comentários. Acho uma discussão muito pertinente. Um grande abraço.

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